Documentaristas não têm vida fácil na Coréia do Norte, o país mais fechado do mundo em seu comunismo caricato. Um dos raros cineastas ocidentais a terem acesso ao cotidiano de Pyongyang nos últimos tempos foi o holandês Pieter Fleury, autor de North Korea: A Day in the Life. O filme, de 2004, não foi exibido nem tem perspectiva de ser lançado no Brasil, mas pode ser comprado pela internet ou baixado pelos intrépidos cavaleiros do download.
Vale a pena. Fleury negociou um acordo com as autoridades norte-coreanas, sob a alegação de que queria mostrar ao Ocidente uma “outra visão” do país, mais humana e ordinária do que a propaganda do “eixo do Mal” que predominava na mídia. Aceitou todas as imposições, como a de não filmar livremente nas ruas, nem mostrar sinais de pobreza.
Sua intenção era narrar um dia na vida de uma pessoa comum, inspirado pela canção A Day in the Life, dos Beatles. Queria fazer cinema de observação, pretensamente sem interferir na ação filmada. Deram-lhe uma fábrica têxtil e uma operária voluntária. Depois sugeriram que ele abordasse a família dela inteira, três gerações vivendo juntas num apartamento da capital.
O bacana do filme é que Fleury usou as limitações para atingir dois objetivos: revelar a ação do poder sobre os cidadãos – que faz o regime sobreviver há quase 60 anos – e, ao mesmo tempo, mostrar que nem todos os norte-coreanos são robôs programados pelo Partido. As cenas incluem a doutrinação permanente de crianças e adultos, as intermináveis louvações ao ditador Kim Jong II e as fábulas edificantes relacionadas a sua biografia, a vigilância constante nos locais públicos, o controle estrito da produtividade e do comportamento coletivo na fábrica, o formalismo árido das relações de trabalho etc.
O horror aos EUA é o argumento central de todas as conversas, numa total contrapartida da propaganda norte-americana. “Bush, você vale menos que meu pé”, vocifera o velho patriarca da família Hong.
Em contrapartida, uma seqüência num curso de inglês deixa entrever uma ponta do iceberg de insatisfação que pode estar represado por trás do discurso cívico. A pretexto de aprender a língua do inimigo, os alunos (adultos) expõem seus pensamentos sobre o amor, a individualidade e o desejo de se integrar ao mundo contemporâneo.
Pieter Fleury encontrou uma boa saída para seu dilema ao expor claramente na narração as restrições que sofria do governo. Numa loja de alimentos, subitamente invadida por compradoras bem vestidas, ele se pergunta: “Serão consumidoras espontâneas ou figurantes enviadas pelo Bureau de Cinema?”
Não conheço o doc Welcome to Korea (vencedor do Emmy em 2001), do também holandês Peter Tetteroo, que dizem ser mais crítico e hábil em burlar a vigilância do governo. Mas o filme de Fleury, no jogo sutil com os obstáculos, consegue nos transportar para o centro da anacrônica experiência norte-coreana.




Um comentário:
Obrigada pela visita em nosso blog (Caminhos pelo mundo). Esperamos que vocês tenham uma ótima estadia no Atacama!
Abraços
Gabriel e Ana
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