Era uma vez um doc que o gelo destruiu.
Foi em 1975, quando o cineasta Geraldo Sarno, o produtor e fotógrafo Thomaz Farkas e o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini embarcaram numa expedição científica pelo Rio Negro, na Amazônia. Durante um mês, enquanto o cientista examinava insetos, Sarno e Farkas saíam para entrevistar e fotografar as populações ribeirinhas. Armazenavam os filmes em caixas de isopor. No percurso de volta do barco, um descuido fez com que o gelo usado para conservar os negativos derretesse e estragasse todo o material.
O doc se perdeu e a história hoje só pode ser contada pelas fotos de Farkas. Mas que fotos! Reunidas no livro Notas de Viagem (Cosac Naify, 2006) e já objeto de uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, essas 73 imagens revelam uma faceta desconhecida do artista que ajudou a fundar a fotografia moderna brasileira. Célebre por suas fotos em preto-e-branco, misto de espontaneidade, formalismo e surrealismo, Farkas surpreende aqui com o colorido exuberante do kodachrome, entre o intimismo de cenas humanas e a grandiosidade da paisagem amazônica.
À medida que o tempo passa, mais itens se descobrem na folha de serviços do húngaro Farkas à cultura brasileira. É um longo currículo que vem dos tempos do Foto Cine Clube Bandeirantes (anos 1940), passa pela imposição de um olhar mais geométrico e modernizador à fotografia paulista, a criação da Fotóptica e a produção de dezenas de documentários na chamada Caravana Farkas (alguns dirigidos por ele), sem contar o trabalho junto a instituições como o MASP, a USP e a Cinemateca Brasileira. Essa trajetória é contemplada em Notas de Viagem com uma gorda entrevista e uma cronologia ilustrada, da lavra de Álvaro Machado e Augusto Massi. Completam o volume textos de Rubens Fernandes Júnior, Rosely Nakagawa, Diógenes Moura e do próprio Farkas.
Se não tivesse literalmente “entrado numa fria”, o doc sobre a expedição no Rio Negro haveria de ser o 12º filme de Sarno produzido por Farkas. Paulo Vanzolini, por sua vez, conseguiu reeditar experiência semelhante 22 anos depois, quando conduziu o filme-viagem No Rio das Amazonas, de Ricardo Dias. Por sinal, o mesmo Ricardo Dias que vem de assinar com Thomaz Farkas o novo curta Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, selecionado para o próximo Festival de Brasília. Dias também tem um projeto de longa-metragem sobre Vanzolini.
Como se vê, é um largo círculo que o tempo vai se encarregando de fechar.
07 novembro 2006
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