07 novembro 2006

Todas as cores de Thomaz Farkas

Era uma vez um doc que o gelo destruiu.

Foi em 1975, quando o cineasta Geraldo Sarno, o produtor e fotógrafo Thomaz Farkas e o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini embarcaram numa expedição científica pelo Rio Negro, na Amazônia. Durante um mês, enquanto o cientista examinava insetos, Sarno e Farkas saíam para entrevistar e fotografar as populações ribeirinhas. Armazenavam os filmes em caixas de isopor. No percurso de volta do barco, um descuido fez com que o gelo usado para conservar os negativos derretesse e estragasse todo o material.

O doc se perdeu e a história hoje só pode ser contada pelas fotos de Farkas. Mas que fotos! Reunidas no livro Notas de Viagem (Cosac Naify, 2006) e já objeto de uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, essas 73 imagens revelam uma faceta desconhecida do artista que ajudou a fundar a fotografia moderna brasileira. Célebre por suas fotos em preto-e-branco, misto de espontaneidade, formalismo e surrealismo, Farkas surpreende aqui com o colorido exuberante do kodachrome, entre o intimismo de cenas humanas e a grandiosidade da paisagem amazônica.

À medida que o tempo passa, mais itens se descobrem na folha de serviços do húngaro Farkas à cultura brasileira. É um longo currículo que vem dos tempos do Foto Cine Clube Bandeirantes (anos 1940), passa pela imposição de um olhar mais geométrico e modernizador à fotografia paulista, a criação da Fotóptica e a produção de dezenas de documentários na chamada Caravana Farkas (alguns dirigidos por ele), sem contar o trabalho junto a instituições como o MASP, a USP e a Cinemateca Brasileira. Essa trajetória é contemplada em Notas de Viagem com uma gorda entrevista e uma cronologia ilustrada, da lavra de Álvaro Machado e Augusto Massi. Completam o volume textos de Rubens Fernandes Júnior, Rosely Nakagawa, Diógenes Moura e do próprio Farkas.

Se não tivesse literalmente “entrado numa fria”, o doc sobre a expedição no Rio Negro haveria de ser o 12º filme de Sarno produzido por Farkas. Paulo Vanzolini, por sua vez, conseguiu reeditar experiência semelhante 22 anos depois, quando conduziu o filme-viagem No Rio das Amazonas, de Ricardo Dias. Por sinal, o mesmo Ricardo Dias que vem de assinar com Thomaz Farkas o novo curta Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, selecionado para o próximo Festival de Brasília. Dias também tem um projeto de longa-metragem sobre Vanzolini.

Como se vê, é um largo círculo que o tempo vai se encarregando de fechar.

20 outubro 2006

Driblando a censura em Pyongyang


Documentaristas não têm vida fácil na Coréia do Norte, o país mais fechado do mundo em seu comunismo caricato. Um dos raros cineastas ocidentais a terem acesso ao cotidiano de Pyongyang nos últimos tempos foi o holandês Pieter Fleury, autor de North Korea: A Day in the Life. O filme, de 2004, não foi exibido nem tem perspectiva de ser lançado no Brasil, mas pode ser comprado pela internet ou baixado pelos intrépidos cavaleiros do download.

Vale a pena. Fleury negociou um acordo com as autoridades norte-coreanas, sob a alegação de que queria mostrar ao Ocidente uma “outra visão” do país, mais humana e ordinária do que a propaganda do “eixo do Mal” que predominava na mídia. Aceitou todas as imposições, como a de não filmar livremente nas ruas, nem mostrar sinais de pobreza.

Sua intenção era narrar um dia na vida de uma pessoa comum, inspirado pela canção A Day in the Life, dos Beatles. Queria fazer cinema de observação, pretensamente sem interferir na ação filmada. Deram-lhe uma fábrica têxtil e uma operária voluntária. Depois sugeriram que ele abordasse a família dela inteira, três gerações vivendo juntas num apartamento da capital.

O bacana do filme é que Fleury usou as limitações para atingir dois objetivos: revelar a ação do poder sobre os cidadãos – que faz o regime sobreviver há quase 60 anos – e, ao mesmo tempo, mostrar que nem todos os norte-coreanos são robôs programados pelo Partido. As cenas incluem a doutrinação permanente de crianças e adultos, as intermináveis louvações ao ditador Kim Jong II e as fábulas edificantes relacionadas a sua biografia, a vigilância constante nos locais públicos, o controle estrito da produtividade e do comportamento coletivo na fábrica, o formalismo árido das relações de trabalho etc.


O horror aos EUA é o argumento central de todas as conversas, numa total contrapartida da propaganda norte-americana. “Bush, você vale menos que meu pé”, vocifera o velho patriarca da família Hong.

Em contrapartida, uma seqüência num curso de inglês deixa entrever uma ponta do iceberg de insatisfação que pode estar represado por trás do discurso cívico. A pretexto de aprender a língua do inimigo, os alunos (adultos) expõem seus pensamentos sobre o amor, a individualidade e o desejo de se integrar ao mundo contemporâneo.

Pieter Fleury encontrou uma boa saída para seu dilema ao expor claramente na narração as restrições que sofria do governo. Numa loja de alimentos, subitamente invadida por compradoras bem vestidas, ele se pergunta: “Serão consumidoras espontâneas ou figurantes enviadas pelo Bureau de Cinema?”

Não conheço o doc Welcome to Korea (vencedor do Emmy em 2001), do também holandês Peter Tetteroo, que dizem ser mais crítico e hábil em burlar a vigilância do governo. Mas o filme de Fleury, no jogo sutil com os obstáculos, consegue nos transportar para o centro da anacrônica experiência norte-coreana.